{"id":843,"date":"2017-11-23T13:04:29","date_gmt":"2017-11-23T15:04:29","guid":{"rendered":"http:\/\/mnu.org.br\/?p=843"},"modified":"2017-11-23T13:04:29","modified_gmt":"2017-11-23T15:04:29","slug":"ieda-leal-de-souza-uma-insurgente-negra-na-coordenacao-do-mnu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novo.mnu.org.br\/?p=843","title":{"rendered":"I\u00eada Leal de Souza: Uma insurgente negra na coordena\u00e7\u00e3o do MNU"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 feminista, \u00e9 radical, \u00e9 I\u00eada, coordenadora nacional!\u201d Assim, as mais de 200 lideran\u00e7as negras participantes do 18\u00ba Congresso Nacional do Movimento Negro Unificado, realizado nos dias 27, 28 e 29 de outubro, em Bras\u00edlia, elegeram sua nova coordenadora, I\u00eada Leal, e uma dire\u00e7\u00e3o nacional formada por 70% de mulheres. O desafio \u00e9 grande. N\u00e3o \u00e9 por menos que a plataforma da nova coordena\u00e7\u00e3o ter\u00e1 como marca: \u201cNossa tarefa \u00e9 reorganizar o MNU para a luta incans\u00e1vel contra o racismo. Estamos preparadas!\u201d<\/p>\n<p>Emocionada, a filha de Moacyr Raymundo de Souza e Maria Gomes Leal de Souza, ele advogado, j\u00e1 ido dos espa\u00e7os deste mundo, ela ainda hoje, com seus 80 anos, refor\u00e7ando desde casa a li\u00e7\u00e3o de que \u201cna vida nada vem em v\u00e3o, que s\u00f3 a luta constr\u00f3i\u201d, tomou por empr\u00e9stimo o sagrado \u201cUBUNTU\u201d de sua ancestralidade africana para aceitar o desafio de ser coordenadora nacional do MNU: \u201cEu sou porque somos,\u201d disse I\u00eada com respeito e gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia no Movimento Negro Unificado come\u00e7ou em Goi\u00e1s em parceria com a professora Silvany Eucl\u00eanio na d\u00e9cada de 1980. Desde ent\u00e3o, I\u00eada faz das li\u00e7\u00f5es aprendidas de grandes lideran\u00e7as do MNU, como L\u00e9lia Gonzalez e Luiza Bairros, e do conhecimento apreendido da literatura das escritoras Carolina Maria de Jesus \u2013 \u201cQuarto de Despejo\u201d, Toni Morrison \u2013 \u201cAmada\u201d, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo \u2013 \u201cOlhos D\u00b4\u00c1gua\u201d, Cristiane Sobral \u2013 \u201cN\u00e3o vou mais lavar os pratos\u201d, fontes de inspira\u00e7\u00e3o para a luta coletiva.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o ando s\u00f3\u201d costuma ser a frase mais repetida por essa mulher forte e guerreira, que diz n\u00e3o saber caminhar sozinha por trazer dentro de si as muitas marcas do legado de Zumbi dos Palmares, Dandara, Martin Luther King Jr, Nelson Mandela, Winnie Mandela, Tereza Benguela, Malcolm X e Bell Hooks \u2013 lideran\u00e7as que no seu tempo e do seu pr\u00f3prio jeito conduziram a luta contra o racismo a partir do engajamento coletivo de suas comunidades na defesa do t\u00e3o sonhado mundo de liberdade.<\/p>\n<p>Defensora das grandes causas: negra, juventude, mulheres, quilombolas, ind\u00edgenas, LGBT, religi\u00f5es de matrizes africanas e de todos os oprimidos, I\u00eada mescla os saberes captados da ativista Angela Davis, de M\u00e3e Ilda Jitol\u00fa, M\u00e3e Beata de Iemanj\u00e1, M\u00e3e Stella de Ox\u00f3ssi, do artista Nelson Inoc\u00eancio da Silva \u2013 \u201cConsci\u00eancia Negra em Cartaz\u201d, dos poetas J\u00f4natas Concei\u00e7\u00e3o, Lande Onawale e Cidinha da Silva e da jovem cantora de hip hop, MC Sofia, para fortalecer a consci\u00eancia negra.<\/p>\n<p>No caminho da milit\u00e2ncia e na certeza de ser movimento negro, I\u00eada tem participado de importantes momentos da luta recente pela verdadeira cidadania da popula\u00e7\u00e3o negra brasileira. Esteve na organiza\u00e7\u00e3o da Marcha Zumbi contra o Racismo e pela Vida, em 1995, um marco para a hist\u00f3ria da cidadania negra no pa\u00eds. Em 2005, na Marcha Zumbi + 10. E com o movimento de mulheres negras ocupou Bras\u00edlia, em 2015, para a Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Viol\u00eancia e pelo Bem Viver!<\/p>\n<p>\u201cEm um pa\u00eds racista como o Brasil, estruturado a base das desigualdades raciais, onde a cor da pele define o seu lugar na sociedade, n\u00e3o nos resta alternativa que n\u00e3o seja lutar, lutar de todas as maneiras poss\u00edveis\u201d, diz Leal, que enfrentou muitas situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o e de racismo. Em 2009, rec\u00e9m-eleita presidenta do Sindicato dos Professores de Goi\u00e1s (Sintego), l\u00e1 estava ela comandando uma assembleia dos servidores da Rede Municipal de Ensino em Goi\u00e2nia quando algu\u00e9m, incomodado por sua lideran\u00e7a negra, n\u00e3o se conteve e em voz alta comentou: \u201cO que \u00e9 que essa preta est\u00e1 fazendo a\u00ed?\u201d<\/p>\n<p>Anos antes, em 2003, enfrentou toda a intoler\u00e2ncia da sociedade goianiense organizando um grandioso \u201cAbra\u00e7o Negro\u201d no Parque Vaca Brava, onde estava acontecendo uma exposi\u00e7\u00e3o de esculturas dos Orix\u00e1s. Os racistas de Goi\u00e2nia haviam se mobilizado para retirar a exposi\u00e7\u00e3o, e ela, juntamente com os integrantes do Centro de Refer\u00eancia Negra L\u00e9lia Gonzalez e do MNU, articulou e mobilizou mais de 2000 estudantes para, no Dia da Consci\u00eancia Negra \u2013 20 de novembro, abra\u00e7ar os orix\u00e1s gritando: \u201cRacismo \u00e9 crime! Exigimos respeito!\u201d<\/p>\n<p>Pergunto \u00e0 I\u00eada se tem consci\u00eancia de quando e como se tornou essa importante dirigente sindical brasileira \u2013 s\u00f3 no Sintego foi duas vezes presidenta, duas vezes vice, \u00e9 atualmente tesoureira, e ocupa tamb\u00e9m a Secretaria de Combate ao Racismo da CNTE (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores em Educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A resposta surpreende: \u201cEu nunca me preocupei em ser lideran\u00e7a ou n\u00e3o. O que eu sempre quis, desde crian\u00e7a, foi saber mais para contribuir mais. Eu sou de uma fam\u00edlia grande e em nossa casa, com seis filhos, sempre houve muita conversa, muita discuss\u00e3o. Mas o que me moveu mesmo na dire\u00e7\u00e3o dessa luta coletiva foram os professores e professoras fant\u00e1sticos que passaram por minha vida nos meus anos de forma\u00e7\u00e3o. Foram eles e elas que me mostraram a educa\u00e7\u00e3o como caminho para enfrentar o racismo e lutar por um mundo melhor\u201d.<\/p>\n<p>E essa educadora engajada, cujo livro de cabeceira \u00e9 \u201cUm defeito de cor\u201d, de Ana Maria Gon\u00e7alves, cujas 952 p\u00e1ginas tra\u00e7am um importante perfil da vida do negro no Brasil colonial, come\u00e7ou bem cedo a transformar a realidade da educa\u00e7\u00e3o nas escolas onde ensinou. Em 2002, quando a Lei 10.639\/2003 n\u00e3o existia ainda, a jovem diretora da Escola Municipal Evangelina Pereira da Costa, em Goi\u00e2nia, j\u00e1 inclu\u00eda a\u00e7\u00f5es de combate ao racismo no projeto pedag\u00f3gico. Ali, todas as turmas do Ensino Fundamental j\u00e1 discutiam a hist\u00f3ria e a cultura africana e afro-brasileira, em um processo coletivo que envolvia alunos, professores, escola e comunidade.<\/p>\n<p>Para a professora que come\u00e7ou a trabalhar ainda estudante e quase menina, devia ter entre 14 e 15 anos, dando aulas para substituir a irm\u00e3 Iara em uma escola perto da pr\u00f3pria casa, a profiss\u00e3o de educadora foi escolha pol\u00edtica assumida conscientemente. \u201c\u00c9 a partir da Educa\u00e7\u00e3o que posso formar jovens para a luta contra o racismo e envolver mais gente nessa grande tarefa que \u00e9 de construir um projeto para a na\u00e7\u00e3o com um olhar na tradi\u00e7\u00e3o africana que tem como fundamento a realiza\u00e7\u00e3o coletiva\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, tamb\u00e9m pergunto \u00e0 I\u00eada, conhecida por ser dura quando necess\u00e1rio, por\u00e9m sem nunca perder a ternura, sobre o que a faz feliz. Sem vacilar, reponde: \u201cA milit\u00e2ncia. \u00c9 bom me sentir envolvida com os temas que fazem meu cora\u00e7\u00e3o pulsar. Eu n\u00e3o sei se seria feliz sem isso\u201d. E acrescenta: \u201cPra mim, \u00e9 uma felicidade imensa ter filhas que militam comigo, ter uma fam\u00edlia de luta, e estar junto com amigos e amigas, construindo uma sociedade que respeita as diferen\u00e7as, justa e racialmente democr\u00e1tica!\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para 2018, a maior realiza\u00e7\u00e3o ser\u00e1: \u201cAvan\u00e7ar na defesa dos direitos humanos e organizar os 40 anos do MNU. Essa ser\u00e1 minha forma de honrar as pessoas de luta que nos guiaram com sabedoria, coer\u00eancia e intelig\u00eancia at\u00e9 aqui. \u00c9 por isso que todos os dias quando me levanto eu agrade\u00e7o por estar viva, porque tive um pai fant\u00e1stico e tenho uma m\u00e3e que aos 80 anos ainda me orienta, e por ter merecido a confian\u00e7a do MNU para conduzir a nossa luta. \u00c9 minha responsabilidade tocar adiante essa caminhada: os passos v\u00eam de longe e me inspiram a seguir contra o racismo sempre\u201d.<\/p>\n<p><em>Fonte : Revista Xapuri<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 feminista, \u00e9 radical, \u00e9 I\u00eada, coordenadora nacional!\u201d Assim, as mais de 200 lideran\u00e7as negras participantes do 18\u00ba Congresso Nacional do Movimento Negro Unificado, realizado nos dias 27, 28 e 29 de outubro, em Bras\u00edlia, elegeram sua nova coordenadora, I\u00eada Leal, e uma dire\u00e7\u00e3o nacional formada por 70% de mulheres. 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